quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

"As obrigações de alto rendimento são um bom substituto para as acções"

Os gestores do fundo Pictet Us High Yield, acreditam que há boas oportunidades de investimento no segmento de dívida de alto rendimento nos EUA. A redução da alavancagem por parte destas companhias e a aposta crescente dos aforradores deverão sustentar um novo ciclo de retornos positivos

A economia mundial continua a apresentar muitas fragilidades, quando poderemos assistir a uma retoma sustentada?

Laird Landmann: Estamos numa situação única em relação ao consumo. Sofremos uma "ilusão de riqueza" nos últimos 15-20 anos. Nos anos 90 havia tanto dinheiro que as pessoas pensavam que não tinham que poupar mais. Obviamente houve uma correcção no início desta década, contudo o mercado imobiliário inflacionou e a mesma ilusão de riqueza regressou. Os consumidores achavam que tinham capital suficiente, que não precisavam de poupar e agora os consumidores, depois da bolha do imobiliário ter rebentado, encontraram-se numa situação em que não pouparam nos últimos 15-20 anos. Por isso, a mudança de comportamento nos EUA não é um fenómeno de alguns trimestres. As poupanças vão ficar elevadas por 5-10 anos. É uma mudança a longo prazo.

E que impacto é que esta situação está a ter nas empresas, nomeadamente nas companhias com pior "rating" de crédito?

LL: Esperamos que a poupança se mantenha num intervalo entre 6% e 8%. A taxa de crescimento do consumo vai ficar em 1% ou 2%. Muito mais baixa do que tem sido tradicionalmente nos EUA. Esta situação está a levar as empresas a diminuírem a alavancagem. Há menor recurso ao crédito. Este é um bom ambiente para as companhias "high yield". Estão a assumir uma posição muito conservadora. Estão a melhorar o balanço. Pela primeira vez em quase 15 anos, os consumidores americanos estão a reduzir de fato o endividamento. A curto prazo é muito doloroso, vai manter o desemprego elevado, provavelmente não vai aumentar mais, mas vai manter-se num intervalo em torno dos 9%.

A Fed poderá tomar novas medidas para suportar a economia, além das já anunciadas?

LL: A Fed está totalmente comprometida com este percurso. Vai fornecer quantos estímulos considerar necessários para impulsionar a economia. Se conseguir aumentar o crescimento nominal nos EUA, então poderá reduzir o défice do PIB ao longo do tempo. O governo americano pôs todas as fichas na mesa. Elevaram os rácios de dívida pública face ao PIB para 20%. Ainda há outros problemas para resolver, sobretudo no sistema financeiro, mas a economia estabilizou. A nossa opinião é que a Fed vai ter que suportar alguns estados. Se for necessário vai haver um "quantative easing" 3 e 4 e não sei se algum dia comprariam acções, mas certamente comprariam obrigações de empresas.

Mas com os juros próximos dos zero, não há o risco de uma subida da inflação?

LL: Vemos vários cenários para isto terminar. Cairmos num ambiente de deflação, como aconteceu no Japão, com as pessoas começarem a temer um baixo crescimento. Os EUA provavelmente não estão na mesma situação do Japão. A população é mais jovem, mais orientada para o consumo, com muita emigração, características que provavelmente ajudam a sair desta aproximação. E mais importante, os reguladores estão a gastar muito dinheiro para sair desta situação. Por isso acreditamos que o segundo cenário é o mais provável. Não vai acontecer no próximo ano, talvez em 2012. Vamos ter medidas inflacionistas nos EUA, onde a Fed vai criar uma inflação moderada. Infelizmente a inflação é muito difícil de gerir.

Como é que eles vão gerir esta situação para criar inflação?

LL: Vão geri-la a imprimir dinheiro. É o que estão a fazer atualmente com o programa de estímulo actual. Cada obrigação do Tesouro é essencialmente dinheiro a ser imprimido. A questão é que isto não é a inflação tradicional. A inflação surge de um excesso de procura face à oferta. Esta é uma inflação monitorizada. É mais arriscada porque o que acontece é que encoraja as pessoas a dizer que os bancos centrais estão a desvalorizar a moeda. Por isso, quando quiser sair é começar a comprar ativo. O preço do ouro mostra que o mundo inteiro está preocupado com as maiores economias do mundo estarem a desvalorizar as suas moedas.

Em termos econômicos, como antecipam que a economia evolua no próximo anos?

Gino Nucci: Prevemos crescimento muito baixo. As obrigações "high yield" deverão comportar-se relativamente bem neste ambiente. As duas principais razões para gostarmos de obrigações de alto rendimento neste momento é, em primeiro lugar, o fato das avaliações ainda estarem muito atrativos, face as Obrigações do Tesouro e outras empresas. Até ações. Em segundo lugar, os fundamentais das empresas melhoraram bastante. A desalavancagem tem sido má para os consumidores mas é muito positiva para as empresas.

Estas empresas são hoje mais saudáveis?

GN: Sim e com toda a liquidez no mercado têm sido capazes de refinanciar-se e adiar para 2015 novas necessidades de refinanciamento. Normalmente quando há problemas é porque a dívida está a aproximar-se do reembolso e é preciso refinanciá-la. O problema surge quando os mercados de capitais estão fechados e os bancos não estão a emprestar. Mas nos últimos dois anos vimos muitas empresas a refinanciar as suas obrigações e lentamente os fundamentais e as condições económicas estão a começar a melhorar.

As obrigações de alto rendimento estão associadas ao nome "junk" (lixo) e geralmente os investidores evitam obrigações com esta classificação, mas a verdade é que são empresas bem classificadas. Cerca de 70% das empresas do S&P têm aquela classificação. E se olharmos em termos temporais é um mercado muito menos volátil do que o mercado acionista. Nos últimos 20 anos, a dívida de alto rendimento teve um bom desempenho e foi significativamente menos volátil.

LL: Neste ambiente econômico, estas empresas vão ser capazes de reembolsar a sua dívida, vão refinanciar dívida quando precisarem, e os investidores vão receber o juro do cupão. Mas se for para as ações, pode ficar desapontado. Não vai ganhar muito mais que o retorno do dividendo. Com um "spread" muito alto entre a dívida de baixo risco e a "high yield", esta última continua a oferecer um retorno muito atrativo.

Acredita que neste momento o investimento em obrigações de alto rendimento é mais atractivo que as acções?

LL: É um bom substituto para as acções em termos de risco de investimento. Num ambiente de crescimento muito lento, que tende a dominar, as acções provavelmente vão desapontar. Por outro lado, as obrigações do tesouro também não são uma boa alternativa a longo prazo, particularmente se a Fed for bem sucedida, as taxas provavelmente vão subir.

Tradicionalmente, os investidores associam estas empresas a activos de alto risco. Acha que a percepção dos investidores em relação à dívida "high yield" está a mudar?

LL: Certamente assistimos a isso nos EUA. A situação económica pôs em dúvida as suas teorias. O governo e os reguladores não podem suportar toda a gente por um longo período de tempo. Imprimir dinheiro não deve criar crescimento económico, deve criar inflação. As pessoas percebem que vão viver num ambiente de baixas expectativas em termos de retornos de mercado, por isso estamos a ver nos EUA um maior grupo de investidores a sair das acções, liquidez e outros tipos de dívida, para obrigações de alto rendimento. Estão a centrar-se mais no rendimento, do que a especular no crescimento. Acreditamos que o crescimento virá, mas, mesmo nas acções, retornos de 14-15% por ano nos próximos dez anos são muito improváveis.

Onde identifica melhores oportunidades neste sector no mercado americano?

LL: Temos uma posição positiva no consumo, na energia e nas "utilities". Estamos cautelosos nas maturidades mais curtas, devido à exposição às taxas de juro. As taxas de juro podem subir nos próximos 12 meses. Outra coisa que gostamos no mercado "high yield" é que podemos comprar obrigações de emissões a desconto. Acreditamos que vão existir muitos movimentos de consolidação em empresas com classificação "B". Quando uma transacção acontecer, as obrigações vão ter que ser reembolsadas. Este é um aspecto muito importante também.

Outra área onde nos vamos focar é no nível de mais baixa qualidade no mercado de alto rendimento, que tiveram um bom desempenho e estão muito bem colocadas neste ponto.

Portanto ainda há espaço para investir nestes activos?

LL: Estamos a entrar numa fase nos EUA onde os investidores vão querer ganhar o juro do cupão, independentemente de ser em obrigações de empresas, "high yield", títularizações de crédito, mais do que vão atrás de acções. As pessoas querem garantir rendimento, querem estabilidade. É um ambiente desafiador, mas que deverá ser favorável para a "high yield", para este terceiro turno do ciclo do crédito, que durará alguns anos, pelo menos.

http://www.jornaldenegocios.pt

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