domingo, 20 de fevereiro de 2011
China, uma superpotência em construção
O ano que findou ficou marcado por SEIS fatos simbólicos que poderão ser considerados como "pontos de inflexão" do papel da China na geografia econômica e política do planeta.
Primeiro: O atual presidente chinês Hu Jintao foi considerado pela Forbes como o homem mais poderoso do mundo, destronando, pela primeira vez, o presidente americano - a decisão da revista de negócios americana surpreendeu, mas não gerou movimentos de protesto entre os leitores. Sinal dos tempos.
Segundo: No confronto do que já se convencionou chamar de G2 (Estados Unidos e China), o poder real de Beijing, como fator condicionante e mesmo de bloqueio da estratégia global americana, ficou patente na cimeira do G20 em Seul, em novembro passado. A decisão recente da Reserva Federal americana de inundar o mundo com "dinheiro quente", ao abrigo de uma nova onda de "alívio quantitativo" (quantitative easing, na designação original), conseguiu que a China formasse uma aliança ad hoc contra a estratégia monetária americana, incluindo aliados tradicionais de Washington, como a Alemanha e os países da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático, envolvendo dez países), que inclusive foram mais "agressivos" nas críticas do que Beijing.
Terceiro: Pela primeira vez, a China chegou ao primeiro lugar em supercomputadores, retirando a liderança aos Estados Unidos. O "Via Láctea", alojado no Centro Nacional de Supercomputação na cidade de Tianjin, destronou em outubro o "Jaguar" do Departamento de Energia americano.
Quarto: Inesperadamente, a China apresentou-se na própria Europa como "bombeiro"-ajudante - a par do Banco Central Europeu - no apagar dos fogos da crise da dívida soberana em vários países da zona euro. Em junho, o gigante chinês COSCO assinou um acordo com o porto grego de Pireu para 35 anos e os chineses prometeram, recentemente, comprar dívida portuguesa, o que revela uma estratégia global que não passa só pelo posicionamento em África ou na América Latina, fora do seu espaço regional asiático, como tem sido mais mediatizado.
Quinto: Num dos despachos revelados pela Wikileaks, há um desabafo da secretária de Estado Hillary Clinton que resume bem o dilema americano: "Como é que se lida com firmeza com o vosso banqueiro?".
Sexto: Finalmente, menos falado é o fato de que, por debaixo do contencioso diplomático aceso entre a China e o Japão sobre águas territoriais e ilhotas em disputa, Beijing procedeu a uma compra massiva de ativos nipônicos, empurrando o iene para um caminho de apreciação e "testando" a capacidade de se impor a Tóquio como a superpotência emergente na região.
Apenas num terreno, Beijing perdeu a cartada - na oposição à atribuição do Prêmio Nobel de 2010 ao dissidente político Lio Xaobo, que cumpre uma pena de onze anos de prisão. A China tentou criar uma larga plataforma de boicote à sessão de atribuição do Prémio em Oslo em dezembro, mas falhou redondamente. E mesmo a tentativa de atribuir no mesmo dia, em Beijing, um Prémio da Paz com o nome de Confúcio redundou num flop, em que o próprio premiado, um político de Taiwan, recusou. Este parece ser o mais óbvio calcanhar de Aquiles da China na cena internacional.
Estratégia em geometria variável
Estes factos desaguam todos numa mesma noção geopolítica - a China é hoje uma superpotência em construção, algo que já não escandaliza ninguém. A Grande Recessão mundial dos últimos dois anos deu mais uma ajuda a esta evidência.
Muitos analistas esperam que mais "factos inesperados" surjam, daqui para a frente, inclusive já no primeiro semestre de 2011, pois, como diz o gabinete de análise prospetiva francês LEAP/E2020, "o mundo está à beira de atingir um limiar crítico na atual fase de deslocação geopolítica".
O processo de evolução do poder geopolítico da China é um facto desde os anos 1990, quando já levava mais de uma década de reformas políticas e económicas desencadeadas por um político sobrevivente do maoismo que os chineses chamam carinhosamente de "pequeno timoneiro", Deng XiaoPing, sem dúvida um dos três homens marcantes do século XX da China, depois de Sun Yat-sen e Mao Zedong.
Já em 1994, a China estava, em termos de poder geopolítico, à frente da Rússia, do Japão ou da Alemanha, e em segundo lugar face à superpotência "solteira", os Estados Unidos, ainda que tal facto não fosse, então, reconhecido. A realidade tornou-se óbvia na década seguinte. Segundo um estudo de Fernando Fonseca e Fernando Gonçalves, dois investigadores portugueses que construíram um índice de poder geopolítico, a China, entre 1994 e 2003, deu um salto de 82 para 123 pontos, enquanto os EUA desceram de 204 para 200 pontos. Naturalmente quem "perdeu" peso substancial foram os outros países do G7 de então (europeus, Japão e Canadá).
Mas esta afirmação não foi linear nem copiou modelos clássicos de projeção. A China tem explorado uma estratégia em geometria variável. A par da aliança estratégica com a Rússia no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai, que voltou a reunir no final de novembro passado, Yu Jincheng, da Universidade de Segurança, em Beijing, referiu, recentemente, a importância do "triângulo estratégico" entre a Rússia, China e Índia (já conhecido pelo acrónimo RIC), que realizou uma cimeira, também em novembro passado, dos ministros dos Negócios Estrangeiros na cidade de Wuhan, capital da província chinesa de Hubei, apesar de assuntos pendentes que permanecem entre a China e a Índia. A definição de aliados de primeiro plano noutros continentes é outro dos pontos sensíveis da projeção global de Beijing: Brasil e África do Sul sobressaem entre os demais.
Estes movimentos da China têm sido interpretados basicamente como acesso estratégico a recursos essências para o seu crescimento, tanto mais que os estrategos em Beijing sabem que as décadas de 2020 a 2040 vão assistir a uma terrível convergência de picos de produção de todo o tipo de matérias-primas e outras commodities gerando uma situação global de escassez aflitiva. Nesse movimento, os chineses não têm só procurado colocar encomendas avultadas junto das principais cadeias globais de fornecedores de recursos naturais, mas estabelecer "acessos preferenciais" através de investimento direto, empréstimos, contratos de longo prazo e proteção geopolítica (como acontece, por exemplo, em relação a casos mais mediatizados, como os do Sudão, Irão e Myanmar/Birmânia).
Abordagem "horizontal" global
Mas a estratégia chinesa é mais vasta: insere-se no que designa por "abordagem horizontal mundial" que se vai construindo num processo por "etapas", dizem alguns analistas. Num livro que está a concluir, Elizabeth C. Economy, diretora de estudos sobre a Ásia no Council of Foreign Relations americano, fala de várias "vagas" de "saída para fora" do gigante asiático.
A primeira começou nos anos 1990 com a diretiva para a internacionalização do acesso a recursos naturais estratégicos para o crescimento da China, aquando da presidência de Jiang Zemin. A segunda é mais recente - explora as debilidades trazidas pela Grande Recessão, apontando para uma expansão financeira dos fundos soberanos, dos trusts financeiros e dos conglomerados do setor empresarial do Estado.
Elizabeth Economy alvitra que a terceira vaga será de projeção externa geopolítica mais aberta, que inclui a própria projeção naval. Em abril passado, o contra-almirante chinês Zhang Huachen referia que a missão era clara: "Temos de evoluir de uma defesa costeira para uma defesa marítima de longa distância. A marinha tem de proteger melhor as rotas de transporte e garantir a segurança das principais rotas marítimas". Ser uma potência marítima global é um objetivo definido para 2050.
Mais no imediato, o objetivo geopolítico em curso será "desafiar o poder dos Estados Unidos na Ásia", como sublinha John Mearsheimer, no Chinese Journal of International Politics, publicado recentemente (nº3/2010). As pressões mais diversificadas sobre os japoneses e a carta da Coreia do Norte são exemplos.
Janela de oportunidade econômica
Mas a China pode mover-se assim no cenário geopolítico, porque tem estado bafejada por uma janela de oportunidade econômica.
Enquanto Estados Unidos e Japão falam de planos de ajustamento do défice orçamental até 2020 na ordem de mais de 12 pontos percentuais do PIB - muito mais do que a própria Irlanda terá de fazer, o caso mais grave na zona euro -, num ambiente de crescimento económico, no cenário mais otimista, inferior a 3%, a China mantém previsões de um crescimento médio anual de 9,5% entre 2011 e 2013 e não prevê ter défices orçamentais superiores a 3% enquanto as políticas chinesas de intervenção face à Grande Recessão se mantiverem.
Estimativas dão o produto interno bruto (PIB) da China, em paridade de poder de compra, nos 17 biliões de dólares (trilhões, na designação americana) em 2015, já mais próximo dos previstos 18 biliões dos Estados Unidos e dos 18,1 biliões da União Europeia, quase galgando um fosso que hoje é, ainda, de 5 biliões de dólares.
Na década que findou, a China contribuiu como "motor" do crescimento mundial com 15% da variação média anual, mas na próxima década representará o dobro, 30%, segundo um estudo prospetivo da Goldman Sachs Global Economics (GSGE), de maio de 2010. Esta firma financeira americana, em 2003, vaticinava que o gigante do Oriente ultrapassaria o PIB dos EUA em 2041 e o Japão (então, o número 2, se não contarmos a União Europeia como um todo) em 2015. Na verdade, ultrapassou o arquipélago do Sol Nascente cinco anos antes. Atualizando os dados, em finais de 2009, a Goldman Sachs antecipava que a China igualará os EUA em 2027. A dinâmica de crescimento foi assustadora na última década: a China cresceu 7 vezes mais rápido do que os Estados Unidos, ou seja 316% no caso do Império do Meio e 43% no caso do Tio Sam.
O peso da China no comércio mundial é, também, assinalável - de menos de 1,7% em 1990 para 9% em 2009, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Afirmou-se como um parceiro comercial importante do resto da Ásia e de África ocupando 12% do comércio em cada uma dessas regiões. Em relação ao Ocidente (incluindo Europa e Américas) o seu peso é quase de 10%.
O impacto global do crescimento chinês foi avaliado recentemente por um estudo de Vivek Arora e Athanasios Vamvakidis, publicado na última edição da revista Finance & Development (edição de dezembro de 2010), publicada pelo FMI. Por cada 1 ponto percentual de mudança no crescimento da China ao longo de cinco anos há um efeito acumulado de 0,4 pontos percentuais no crescimento do resto do mundo.
Em suma, a China acabou por passar por cima do braseiro da Grande Recessão iniciada em 2007 com queimaduras ligeiras: desceu de um crescimento de 12% no segundo trimestre de 2007 para 6% no primeiro trimestre de 2009, uma desaceleração enorme em termos internos, mas benigna face às recessões porque passaram os países desenvolvidos.
A globalização financeira
Na área mais "sensível" do capitalismo mundial, o setor financeiro, a China apresenta os dois maiores bancos do mundo em capitalização bolsista, o Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) e o China Construction Bank, com valores muito superiores ao Bank of America (EUA), ao JPMorgan Chase (EUA) e ao HSBC (Reino Unido) que se seguem nesse TOP 5.
Num ranking publicado pelo The Boston Consulting Group, relativo aos 30 maiores bancos do mundo em capitalização bolsista em dezembro de 2009, a repartição era a seguinte: 9 para a União Europeia (Reino Unido, Espanha, França e Itália), 5 para os EUA, 4 para a China, 4 para a Austrália, 2 para a Suíça, 2 para o Brasil, 2 para o Canadá, 1 para o Japão e 1 para a Rússia.
Também a moeda chinesa, o renminbi ou yuan, prepara a sua "globalização" alavancando os fluxos comerciais em que o país está envolvido.
Como nos sublinhou o professor Barry Eichengreen, da Universidade de Berkeley, num horizonte de dez anos poderemos ter um triunvirato no sistema monetário internacional formado pelo dólar, pelo euro e pela divisa chinesa. É essa a tese central do seu livro mais recente intitulado sugestivamente "Exorbitant Privilege: The Rise and Fall of the Dollar and the Future of the International Monetary System". "A China já começou a mover-se nesta direção. Negociou com o Brasil de modo a que os dois países possam usar as suas próprias divisas nas transações bilaterais. Permitiu que alguns bancos façam emissões de obrigações em renminbi em Hong Kong. Também autorizou que se emitam ações denominadas em renminbi em Xangai", diz-nos o professor de Berkeley. Num artigo de investigação com Marc Flandreau sobre o que ocorreu entre 1914 e 1939, Eichengreen mostrou que historicamente a partilha do sistema monetário internacional por duas divisas é possível - foi o que aconteceu, então, entre o dólar americano e a libra esterlina.
Em 2015 prevê-se que 50% de todo o comércio externo com os mercados emergentes se realize na moeda chinesa e não mais em dólares, contra 3% atualmente, segundo um estudo do HSBC Holdings. Os reguladores chineses decidiram em dezembro autorizar 70 mil exportadores a usar o yuan nas transações - apenas poucas centenas estavam autorizados. O Standarad Chartered prevê que 20 a 30% das importações chinesas poderão passar a ser negociadas em yuan e não em dólares. Hoje, apenas, 1% se realiza na moeda chinesa.
Duas grandes multinacionais americanas, a McDonald's e a Caterpillar, já emitiram, este ano, obrigações denominadas em renminbis no mercado offshore de Hong Kong, numa estreia que deverá ser seguida por outras empresas de todo o mundo. O banco VTB russo tornou-se o primeiro emissor de obrigações em renminbi nos mercados emergentes e o Banco da China, pela primeira vez, a 13 de janeiro, começou a permitir que os seus clientes movimentem yuan nos próprios Estados Unidos. As companhias chinesas estão a usar Hong Kong para abrir contas em yuan - poderão somar 45 mil milhões de dólares no final de 2011.
Por outro lado, a China, de mero recetor de fluxos de investimento direto estrangeiro, passou a investidor global. Segundo o FMI, de uma percentagem negligenciável em 2004 saltou, em apenas cinco anos, para 4% dos fluxos de investimento direto no estrangeiro. Em África o salto foi notável - de 80 milhões de dólares em 2003 para 1360 milhões seis anos depois.
O "momento Sputnik" na Ciência é outro ponto a merecer realce. Foi em 1986, quando os cientistas chineses convenceram o governo a financiar a investigação e o desenvolvimento "civil" em universidades, laboratórios e empresas de "experimentação" desde a clonagem à robótica. Em 2001 fizeram uma "disrupção" e atacaram em força as tecnologias energéticas. Em 2003, a China era virgem em energia solar. Cinco anos depois já estava a fabricar mais células solares do que outro qualquer país.
Deitar água na fervura
Mas há quem coloque muitas interrogações a todas estas previsões de sucesso em sucesso. "Há já um historial de prognósticos muito excitados desta natureza. Estas previsões não têm qualquer sentido. Nos anos 1950 dizia-se que a União Soviética ultrapassaria os Estados Unidos nos anos 1990. No final dos anos 1970 esperava-se que a Alemanha o fizesse em quatro décadas - ou seja agora. Nos anos 1980 era tido como absolutamente certo que o Japão passaria a perna aos EUA nesta década que agora findou. Retrospetivamente, todas estas previsões, hoje, parecem totalmente ridículas, mas na altura eram o suprassumo", afirma-nos Michael Pettis, professor americano de Finanças na Escola de Gestão de Guanghua, da Universidade de Beijing, que edita um blogue muito lido na Ásia, o China Financial Markets, na web em http://mpettis.com .
Por que razão falharam todos esses prognósticos, interroga-se, então, Pettis, antes mesmo que lhe coloquemos a questão. Responde secamente: "Extrapolava-se sem realismo a partir de períodos de crescimento insustentável e desequilibrado". Sobre a China a questão coloca-se, de novo, como se colocava face à insustentabilidade do modelo soviético (que implodiu) e do japonês (que entrou numa longa depressão) ou face às limitações da Alemanha - o tal "modelo renano" que andou na moda - em termos de projeção global.
"Se acredita, num ato de fé, que o modelo chinês de crescimento é sustentável, então esse objetivo de ultrapassar os EUA é bem possível em dez a quinze anos. Mas, se pensa, como eu acho, que, nos próximos anos, vamos assistir a uma desaceleração súbita no crescimento que obrigará a China a um ajustamento difícil de dimensões nipónicas, então o objetivo poderá não ser alcançado nessa data prevista, mas talvez só lá para meados do século", diz-nos o professor, que acrescenta: "Aliás, a maioria dos próprios economistas chineses não acredita uma linha nessas previsões otimistas avançadas pelos estrangeiros, sobretudo por bancos que parece andarem à desgarrada para anunciarem a data mais próxima em que o facto ocorrerá".
As próprias projeções económicas do Centro de Investigação e Desenvolvimento do Conselho de Estado (o governo chinês) apontam para uma escada descendente da taxa anual média de crescimento do PIB nos próximos quinquénios: abaixo dos 8% (um número mágico, baoba, em chinês) entre 2011 e 2025 e tocando os 6% entre 2020 e 2030. O desafio vai ser como fazer esta transição para a desaceleração de um modo gradual e não disruptivo, dizia o The Wall Street Journal num trabalho sobre "The Big Red" em julho de 2010. Contudo o abrandamento previsto não toca o limiar crítico de 5% de crescimento, considerado, recentemente, pela agência de notação Fitch, como linha vermelha que provocaria na China uma "real situação de stresse".
Desigualdades gritantes
No entanto em PIB per capita, o abismo em relação aos Estados Unidos ou à Europa continuará a ser abissal. No próximo ano, o rendimento por habitante na China será 10% do americano e 15% do europeu. Em 2015 deverá rondar os 5000 dólares, segundo a agência noticiosa oficial Xinhua, ou seja, deverá ser, apesar do esforço de aumento, apenas 8,4% do que é previsto para os cidadãos americanos. Ou seja, em termos relativos, a distância, paradoxalmente, alargar-se-á!
As desigualdades numa economia que se considera no "primeiro estágio do socialismo com características chinesas" são flagrantes. O rácio entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres, segundo as Nações Unidas, é de 33, mais do dobro do mesmo índice de desigualdade para Portugal ou para os Estados Unidos. A média de remunerações dos executivos no setor empresarial do Estado é 128 vezes o salário nacional médio. Segundo o China Daily há, ainda, 36 milhões de chineses em "extrema pobreza", o que em termos relativos é pouco significativo (2,8% da população), mas sensível num país em que a "igualdade" ainda faz parte do discurso legitimador do poder.
A par da nomenklatura do aparelho de Estado e do Partido Comunista desenvolveu-se uma plutocracia sobretudo oriunda do imobiliário, do setor financeiro "sombra" (os trusts chineses), de uma minoria que controla a exploração mineira (muitos são mesmo alcunhados temerosamente de "patrões do carvão") e dos meandros da corrupção onde se geram o que os economistas chineses apelidam de "rendimentos escondidos". Um estudo de Wang Xiaolu, diretor-adjunto do Instituto Nacional de Investigação Económica, revelava que esta economia de "luvas" por baixo da mesa ronda nas zonas urbanas um montante de 500 mil milhões de euros por ano que não se refletem nas estatísticas oficiais, ou seja 13% do PIB.
Fosso que se pode agravar com os sinais de hiperinflação em certos setores (como nos produtos alimentares) e de inflação monetária galopante em ativos como no imobiliário que tornam proibitiva a habitação nas coroas centrais metropolitanas. O nível de "bolha" imobiliária pode ser medido pelo facto de ser mais elevado em Beijing e em Shenzhen (na fronteira com Hong Kong) do que era em São Francisco, a cidade mais cara da América, no pico da "bolha" dos anos 2000, segundo um estudo do National Bureau of Economic Research americano.
O que revela que a China tem um problema real na "convergência" com os níveis de vida médios dos países desenvolvidos. O que pode tornar uma miragem para grande parte dos chineses a tão falada xiaokang shehui, ou "sociedade moderadamente próspera", prometida pelo Partido Comunista Chinês até ao seu centésimo aniversário em julho de 2021.
Contudo, os analistas dão como certa a emergência de uma classe média - medida por um poder de compra superior a 6000 dólares anuais (considerando este limiar o de uma classe média baixa nas condições da China), que, em 2010, já deverá ter atingido mais de 500 milhões de cidadãos e que, em 2020, deverá chegar aos 1000 milhões, ultrapassando largamente o mesmo segmento social no conjunto dos países que formavam o G7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão e Reino Unido), segundo dados do estudo da GSGE já referido. São números muito otimistas, respondem os chineses - Lu Xueyi, da Academia de Ciências Sociais da China, aponta para uma classe média abrangendo 23% da população atual e 40% em 2020. O que dá números substancialmente mais magros: 300 milhões hoje e 520 milhões daqui a dez anos.
É preciso nunca perder de vista que a China é uma realidade multifacetada - um mundo dentro das suas próprias fronteiras: 28 províncias e municipalidades, duas regiões autónomas (Tibete e Mongólia Interior), duas regiões autónomas especiais (Hong Kong e Macau, onde vigora oficialmente um outro sistema político e económico) e 56 grupos étnicos.
Patrick Chovanec, um americano professor na Escola de Economia e Gestão da Universidade de Tsinghua, em Beijing, referiu-nos que o país é "um mosaico" que pode ser dividido em "nove cores", nove realidades distintas. "Não é um monólito", garante, baseado na observação direta que fez em 20 anos de viagens pelo imenso país.
A remuneração do capital jovem
Há, ainda, um problema social sério de valorização do capital intelectual jovem na China. Um recente relatório de Cai Fang, chefe do Instituto da População e da Economia do Trabalho, ligado à Academia de Ciências da China, relatava que os licenciados jovens ganham não mais de 1500 yuans (cerca de 170 euros) por mês. A divulgação desta realidade no Beijing Times provocou um debate aceso no portal chinês Sohu, por onde perpassou muito cinismo e revolta contida.
A massificação do ensino universitário na última década não foi acompanhada por oportunidades de emprego à altura das qualificações dessas novas levas de licenciados, apesar do boom de crescimento económico de dois dígitos. Segundo as próprias estatísticas oficiais 1/3 dos cerca de 6 milhões de licenciados que saíram em 2008 não encontraram sequer emprego no primeiro ano depois de saírem das universidades.
Paradoxo da situação, a escassez de mão-de-obra em alguns setores em disparo de crescimento, como no setor fabril e na bolha da construção, levaram os trabalhadores migrantes - um dos setores mais precários que soma 200 milhões de gente em permanente mobilidade - a conseguir melhorias salariais, falando-se, hoje, de um salário médio de 1200 yuans (pouco mais de 135 euros) nessas categorias - um diferencial de 35 euros para um jovem licenciado.
A questão política do "modelo"
Mas o ponto mais polémico é saber se há um "modelo chinês" - título de um livro recentemente publicado em Beijing pelo casal de futuristas John e Doris Naisbitt em diálogo com um alto quadro chinês - com originalidades que garanta a sustentabilidade do crescimento do país e que tenha capacidade de projeção global influenciando outros.
Os chineses, oficialmente, rejeitam tal ideia - Zhao Qizheng, com quem os Naisbitt debateram a situação da China para o livro "The China Model", garante que "não temos qualquer intenção de exportar o modelo". O que há, por parte de outros países emergentes, é "entender o processo prático do desenvolvimento chinês". Os Naisbitt, por seu lado, garantem que há algo novo na China no plano político e social, a que chamam de "democracia vertical", que seria um sistema flexível, adaptativo (ver entrevista ).
A questão política é um ponto muito sensível - naturalmente não é fácil discuti-la abertamente na China. Michael Pettis faz um balanço dos pontos fortes e fracos do que é hoje considerado esse "modelo", e paradoxalmente conclui que "são os mesmos".
Explica-nos longamente: "Um governo centralizado que consegue mobilizar recursos numa escala absolutamente massiva é um ponto forte quando o caminho é simples e está bem definido, mas quando as condições se tornam mais complexas pode criar erros de alocação de recursos monumentais por muito mais tempo do que um sistema aberto o permitiria. O mesmo raciocínio se pode fazer para o sistema financeiro, que ao ser controlado pelo Estado pode obrigar as famílias a subsidiar o financiamento dos custos de uma industrialização acelerada, mas isto conduz - como está a conduzir - a um fraco consumo e a uma perigosa dependência do setor exportador, além de problemas ambientais gigantescos. Também, no caso dos grandes conglomerados estatais que dominam indústrias, isso facilita o desenvolvimento de grandes projetos, mas, depois, tendem a ser muito ineficientes comparados com as pequenas e médias empresas privadas chinesas". A questão é conseguir um equilíbrio, conclui Pettis.
Versão ampliada de artigo inicialmente publicado na edição de janeiro de 2011 da revista Exame
Beijing, uma cidade paradoxal
A capital chinesa é uma cidade surpreendente. Os centros comerciais a cheirar a novo nas ruas nobres, como em Wangfujing, estão quase às moscas, mesmo as lojas mais visitadas têm mais empregados do que clientes. O povo simples e a tal classe média, de telemóvel e que já passeia cães na rua, apinham-se nos mercados tradicionais, onde os preços já não são uma pechincha. Mesmo um estrangeiro que entre numa frutaria de bairro encontra um cacho de uvas ou de bananas a preços superiores aos de Lisboa. A uma generalizada hiperinflação dos preços dos produtos básicos e das mezinhas medicinais tradicionais apenas escapam as padarias.
As grandes atrações para a classe média letrada não são a Praça Tianmen ou a Cidade Proibida - mas dois incríveis museus privados, o dos brinquedos de lata dos anos 60 'made in China' do casal Zhang Yang e Zhang Zhan, num pequeno apartamento em Xitao Hutong, na cidade velha perto da Cidade Proibida, e o Museu Guanfu, de antiguidades do mobiliário e artesanato chineses que a Revolução Cultural quase destruiu ou obrigou a enterrar e esconder no campo, mas que Ma Weidu colecionou desde os anos 1980 e tem em exposição num amplo espaço em Jinzhan, num subúrbio.
Ao fim de semana, no átrio da sobrevivente velha igreja de S. José levantada em 1655 - a que, também, chamam de catedral de Dongtang - na avenida comercial de Wangfujing não se podem perder dois espetáculos. Grupos de ex-guardas vermelhos, hoje nos seus 60 e 70 anos, tocam e cantam canções dos tempos da Grande Revolução Cultural Proletária, com muitos espontâneos a saltar da assistência para agarrarem o microfone e exercitarem a voz adormecida há mais de quarenta anos.
Ao lado, como se a música de fundo revolucionária não lhes aquecesse um milímetro da alma, jovens fanáticos do skate usam a parte direita do átrio para malabarismos com igual assistência entusiasmada ao longo de todo o dia. A cultura do skateboarding está em boom entre a juventude. Os principais fabricantes chineses para marcas estrangeiras encorajam-na com vista a criar um mercado doméstico de milhões.
E, ao final da tarde, não se pode perder a livraria-sensação, The Bookworm, onde se pode comer, assistir a um festival literário, ou a diversos happenings, por onde passam muitos livros da vanguarda literária chinesa. A 8 de dezembro decorria uma noite de tributo a John Lennon.
Para terminar com um sabor português, o chef em destaque é Ricardo Bizarro, um conimbricense, que está à frente do Vasco's, um restaurante no Hotel Hilton, na zona de Wangfujing. Pratos típicos portugueses e macaenses são o seu ponto forte. O que é que distingue a sua cozinha? A arte de usar as especiarias, respondeu ele à revista Bejing This Month.
http://aeiou.expresso.pt
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Brasil supera China e atrai mais investimentos no setor imobiliário

WASHINGTON - O Brasil superou a China na preferência dos investidores estrangeiros no setor imobiliário, segundo uma pesquisa da associação internacional do setor, com sede em Washington.
Na pesquisa da Associação de Investidores Estrangeiros em Mercado Imobiliário (Afire, na sigla em inglês), o Brasil apareceu como o mercado emergente mais promissor de 2011, e o quarto lugar no ranking geral dos países com mais chances de valorização.
Os Estados Unidos, país onde os preços dos imóveis desabaram com a crise econômica, lideraram a lista, com mais de 65% das opiniões dos investidores - seis vezes mais do que a China.
"À medida que os temores de uma recessão dupla são afastados, os investidores se revelam mais e mais entusiasmados com os prospectos para a economia americana", disse o diretor-executivo da Afire, James Fetgatter.
"Mas eles não estão diversificando os seus investimentos em todo o país, e sim focando em cidades como Nova York e Washington, ainda mais do que nos anos anteriores."
As duas cidades americanas apareceram como os dois alvos prediletos dos investimentos estrangeiros, seguidos por Londres, Paris e Xangai.
Os participantes da pesquisa controlam mais de US$ 627 bilhões (valor equivalente a mais de R$ 1 bilhão) em ativos imobiliários em todo o mundo - cerca de 40% deste valor dentro dos EUA.
O presidente da associação, Ian Hawksworth, disse que para 2011 os investidores se mostraram muito mais dispostos a diversificar seus investimentos, o que beneficiou os mercados emergentes.
O Brasil foi citado pela primeira vez na pesquisa em 2009. No ano passado, o mercado brasileiro ficou atrás do chinês entre os mercados emergentes, empatado com a Índia. Da lista constam ainda o Vietnã e o México.
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
China vai reforçar controle sobre mercado imobiliário
A China vai fortalecer os controles existentes sobre o mercado imobiliário no próximo ano, para conter o aumento acelerado dos preços dos imóveis, informou o Ministério de Habitação e Desenvolvimento Urbano-Rural, segundo a rádio estatal. O ministério afirmou que vai reforçar os controles contra compras especulativas de moradias e aumentar a oferta de residências, ao mesmo tempo em que garantirá uma oferta adequada de terrenos para moradia privada.
Não foram divulgados mais detalhes do plano, mas este é um sinal de que o governo ainda não está satisfeito com os resultados de sua campanha para controlar os preços dos imóveis este ano. Em novembro, os valores dos imóveis registraram seu terceiro aumento mensal consecutivo, acumulando alta de 7,7% na comparação com igual mês do ano anterior em 70 cidades, de acordo com os dados oficiais. As informações são da Dow Jones.