ANÁLISE E PERSPECTIVAS / Gunther Rudzit, cientista político
O título acima poderia parecer uma redundância, pois o mundo está em constante mudança. Entretanto, este ano que termina foi, em termos das Relações Internacionais, um grande marco em transformações que se aceleraram e passaram a definir o futuro do Planeta, não somente para o próximo ano, como para a próxima década, no mínimo.
Este ano foi marcado pela diferença de crescimento econômico entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento. Durante a maior parte desta década, o mundo passou por um grande crescimento econômico, puxado pelos países ricos, mas, com o estouro da bolha especulativa, em setembro de 2008, os reflexos negativos se espalharam pelo mundo, praticamente sem exceção, o que levou a economia mundial à recessão no ano de 2009. E assim, entramos em 2010 com o quadro invertido, com os países em desenvolvimento, principalmente os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) crescendo a taxas muito altas, oposto ao que aconteceu com Estados Unidos, Europa e Japão.
Esse quadro econômico também gera profundos impactos políticos. O primeiro deles é a percepção de que os Estados Unidos, considerados como a última superpotência mundial, está em declínio, o que tem efeitos políticos-diplomáticos profundos, uma vez que este país é o principal ator da criação e manutenção das regras internacionais que mantêm a estabilidade global.
Essa visão ganhou tanta força que Michael Mandelbaum, diretor de uma das maiores escolas de relações internacionais dos Estados Unidos, passou a defender que o governo americano não poderá continuar a agir como vem fazendo nos últimos 60 anos. Sem essa ação, a tendência à instabilidade deve aumentar.
Por outro lado, este ano que se finda marcou a China como um novo motor da economia mundial. Mesmo que ainda não substitua os Estados Unidos, com sua importação gigantesca de commodities minerais e agrícolas, têm impulsionado o crescimento de outros países no mundo inteiro, incluindo o Brasil. Mas, com suas exportações de manufaturados, conseguiu acumular reservas internacionais de U$ 2,13 trilhões, principalmente em títulos do governo americano, o que a tornou tanto na maior detentora da dívida norte-americana, como no país que mais investe externamente.
É por isso que Ian Bremmer passou a dizer que surgiu definitivamente uma nova forma de organização social que concorre com a ocidental. Segundo esse autor, as democracias capitalistas ocidentais passarão a enfrentar a "concorrência" do capitalismo de estado, no qual o governo utiliza a economia capitalista para seus fins políticos, tendo como principais expoentes China, Rússia e países árabes. Esse "novo" modelo atrairia várias lideranças, em diferentes regiões do mundo, uma vez que as relações econômicas e diplomáticas não teriam a interferência de valores ocidentais, como democracia e direitos humanos.
Assim, terminamos 2010 com várias crises em diferentes setores, e a tendência para os próximos anos, infelizmente, é que estas aumentem. É neste cenário que se dará a inserção do Brasil sob novo governo.
As condições econômicas globais não serão mais tão benignas como foram em boa parte dos anos do governo Lula. Há a possibilidade de uma nova crise econômica, com a ameaça à moeda comum europeia, o Euro, uma vez que a realidade europeia mudou radicalmente diante do aprofundamento da recessão e aumento da dívida de vários países, como Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália.
Dessa forma, as posturas do governo Dilma Rousseff serão muito importantes para posicionar o Brasil diante desse novo quadro político-econômico internacional. Cabe questionar se nessa área o novo governo deverá dar mais peso aos interesses econômicos do que a valores básicos, como democracia e direitos humanos.
Fonte:
Diário do Nordeste
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