O preço dos cereais está a reforçar máximos desde o início do ano.
Os preços dos terrenos agrícolas estão a disparar nos EUA o que está a preocupar alguns especialistas.
Um artigo intitulado 'In price of farmland, echoes of another boom', o New York Times (NYT) alerta para o nervosismo crescente em torno de uma possível nova bolha imobiliária no país, desta vez relacionada com os terrenos agrícolas.
É que, segundo dados da Reserva Federal de Chicago, os preços da terra para cultivo subiram 23% em algumas regiões do Iowa, por exemplo. Um aumento significativo foi assinalado também nas outras regiões do centro-oeste dos EUA, como é o caso do Illinois, Indiana, Kansas, Minnesota e Nebraska.
"Parece que os preços estão a subir e a descer aos saltos" comentou ao NYT Jeff Freking, que comprou recentemente um terreno de 80 acres, a 10 mil dólares por acre (cerca de 0,5 hectares). Há dois anos, Freking comprou terras da mesma qualidade por apenas 6 mil dólares o acre.
A impulsionar os preços destes terrenos está a escalada das matérias-primas nos mercados internacionais, sobretudo no que se refere ao trigo, milho e soja. O preço do milho, por exemplo, já praticamente duplicou nos últimos doze meses. Há uns anos os EUA presenciaram uma situação idêntica, quando os terrenos agrícolas valorizaram muito num curto espaço de tempo, devido ao aumento da procura do milho para produção de etanol.
Ecos de uma nova bolha
Os analistas consultados pelo NYT estão particularmente receosos porque o preço médio dos cereais está a aproximar-se, perigosamente, dos níveis que atingiu há 30 anos, naquele que foi o pico do último "desastroso ciclo de expansão e recessão para os terrenos agrícolas".
Thomas Hoenig, presidente da Reserva Federal de Kansas City, diz que"a História nos ensinou que é quase impossível determinar até que ponto o 'boom' dos terrenos agrícolas se pode tornar uma bolha insustentável impulsionada pelos mercados financeiros". E alerta para o risco do valor dos terrenos caírem um terço, ou mesmo para metade, numa situação como esta.
Os preços subiram tanto que a "situação está a ficar assustadora", nota, por seu turno, Mike Green, leiloeiro de imóveis, que há pouco tempo vendeu uma herdade a 11 mil dólares o acre, "um recorde", segundo Green.
Richard Brown, economista da Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC),avisa que "os terrenos agrícolas são activos muito procurados, num mundo onde muitas pessoas caíram em desgraça".
A agência, que faz seguros de depósitos bancários e monitoriza a sustentabilidade financeira do sector, enviou cartas a avisar as instituições de crédito para que não descuidem o rigor na concessão de empréstimos, devido aos elevados preços dos terrenos. "Se for uma bolha, está na fase de formação", notou Brown.
A valorização destes terrenos depende de vários factores. Colheitas como milho, trigo e soja costumam provocar uma subida dos preços, e consequentemente, a terra na qual são cultivadas valoriza-se.
Os juros baixos também contribuem: atraem investidores que procuram uma alternativa a investimentos de baixo retorno e à volatilidade das bolsas, e incentivam os produtores a comprar mais terra em vez de investir o lucro em outros activos.
Empréstimos e esquemas
Uma das grandes preocupações dos reguladores, diz o NYT, é que os produtores comecem a contrair empréstimos sobre propriedades que já possuem, com base nos elevados valores de hoje, e que usem os recursos para adquirir mais terra ou fazer outras aquisições. Este esquema assemelha-se ao que os produtores faziam há 30 anos, e ao que os proprietários de habitações fizeram antes da explosão da bolha imobiliária.
Jason Henderson, um dos vice-presidentes da agência de Omaha da Reserva Federal de Kansas City, disse ao jornal norte-americano que ouviu, da parte de banqueiros, que este esquema pode voltar a concretizar-se.
O responsável alerta ainda para o facto destas valorizações estarem a atrair cada vez mais especuladores. Segundo uma pesquisa da Iowa State University, os investidores foram responsáveis por 25% das aquisições no Estado no ano passado, o que representou um ligeiro aumento em relação a 2009.
"Muitos podem não ser aqueles que apresentam a oferta final, mas são eles que fazem os lances", garantiu um outro leiloeiro à publicação.
Apesar de todos os receios, não há unanimidade quanto ao aparecimento ou não desta bolha.
Michael Duffy, um economista especializado em agricultura, da Iowa State University, considera que o mercado parece fundamentalmente saudável e que o aumento dos preços dos terrenos acompanham a subida dos preços das matérias-primas. "Se tem uma terra boa, ela vale muito dinheiro", afirmou.
"Se analisarmos a história desde o início da agricultura nos Estados Unidos até agora, verificamos que a tendência no longo prazo foi de crescimento", disse Bruce Brook, o corretor que vendeu os terrenos a Jeff Freking.
"Haverá flutuações do mercado. Mas não me surpreenderei se, daqui a dez anos, pagarmos 20 mil dólares por um terreno pelo qual pagámos 10 mil dólares", concluiu.
http://economico.sapo.pt
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